Ícone X Símbolo
O universo da semiótica

Comecemos por definir o signo: ente mediato, algo que está por outra coisa sob algum aspecto. Para Hjelmslev equivale às unidades de primeira articulação; para Prieto, a essas mesmas unidades nos códigos não lingüísticos. Para Saussure, o conjunto do significado e significante.
Com o aperfeiçoamento da capacidade de comunicação do homem, foi desenvolvido um instrumento chamado linguagem verbal e um dispositivo para manipulá-la, a dupla articulação.

A primeira articulação da linguagem é aquela segundo a qual todo o “significado” que se deseja transmitir, analisa-se em uma seqüência de unidades, cada qual dotada de uma forma vocal e de um sentido. Essas unidades chamam-se monemas. Os monemas são os signos, isto é, unidades de duas faces: o significado, que é o sentido ou valor diferencial, e o significante, que se manifesta fonicamente. Essa manifestação é constituída por unidades da segunda articulação, que se chamam fonemas (unidades sem significado não se enquadrando, portanto como signos).

Ao contrário das línguas naturais, que são sempre sistemas de dupla articulação, os códigos visuais podem possuir apenas uma articulação (a primeira ou a segunda), não possuir nenhuma ou possuir as duas.

Prieto, no livro Mensagens e Sinais, denominou de semas as unidades que correspondem a um enunciado lingüístico, de signos as unidades mínimas de significação e de figuras as unidades destituídas de significação. Temos, então, a seguinte correspondência entre a lingüística e os códigos não-lingüísticos:

  Lingüística
(Segundo Descartes)
Códigos não-lingüísticos
(Segundo Prieto)
Enunciado Sintagma ou Frase Sema
Unidades mínimas de significado Monema Signo
Unidades sem significado Fonema Figura

Componentes do código:

1) O significante. Ex: O som cadeira (meio físico)
2) O significado. Ex: O conceito pessoal acerca do objeto cadeira (meio psicológico)
3) Aquilo que existe. Ex: O objeto cadeira (meio físico)

Orden e Richards, no livro The meaning of meaning, ilustram a relação entre estas três entidades semióticas por meio de um triângulo:

O triângulo semiótico

No triângulo semiótico, a relação entre o símbolo e o significado (a referência) é casual, no sentido de que o símbolo deve servir (pelo menos em parte) à referência que se tem em mente.

Na relação entre a referência e o referente também existem relações casuais, pois pensamos e nos referimos sempre a “algo”, seja este algo um objeto inteligível ou objeto sensível.

A relação entre o símbolo e o referente é, em geral, nas línguas naturais, arbitrária, ou, como diz Saussure, imotivada. Esta relação é, porém, direta nos signos analógicos, icônicos ou motivados. Neste último caso, ao contrário do primeiro, a base do triângulo semiótico não necessitaria ser pontilhada.

Pode-se concluir através das relações apresentadas, que o signo não é um objeto, mas uma função, a função sígnica.
A semiótica de tradição pierceana associa à função sígnica: o significante no plano de expressão, o significado no plano do conteúdo e os objetos, quando discute os signos como índices ou ícones.
Um signo icônico, como define Pierce: “... é aquele que pode representar seu objeto, sobretudo por via de similitude...”

A função sígnica (S), quando considerada como triádica, é composta por três referências (R): referência ao meio (M), referência ao objeto (O) e referência ao interpretante (I). Pode se caracterizar como: S = R (M, O, I). A correspondência destes componentes só caracterizam um signo quando plenamente interligados, como mostrado abaixo nos vértices do triângulo semiótico:

Pierce inicia a sua classificação dos signos dividindo-os de acordo com a função sígnica, isto é, dividindo-os segundo três tricotomias, a saber: a relação signo-meio S(M), signo-objeto S(O) e signo-interpretante S(I).

De acordo com a primeira tricotomia, isto é a relação signo-meio S(M), o signo pode ser (segundo Pierce):

Qualissigno - mera qualidade.

Sinsigno - um existente concreto.

Legissigno - uma lei geral.

De acordo com a segunda tricotomia, isto é, na dependência da relação do signo para com seu objeto, o signo pode ser denominado de ícone, índice ou símbolo.

Ícone - Segundo Pierce, é aquele signo que, na relação signo-objeto, indica uma qualidade ou propriedade de um objeto por possuir certos traços (pelo menos um) em comum com o referido objeto. São ícones os quadros, desenhos, estruturas, modelos, metáforas e comparações, figuras lógicas e poéticas etc. Os ícones comunicam de forma imediata porque são imediatamente percebidos.

Índices - São aqueles signos nos quais a relação signo-objeto S(O) é uma relação direta, casual e real com seu objeto, como, por exemplo, o ponteiro de um relógio.

Símbolo - É aquele signo onde a relação signo-objeto S(O) designa seu objeto independente da semelhança (caso no qual é ícone) ou das relações causais com o objeto (caso no qual é índice). É um signo arbitrário, cuja ligação com o objeto é definida por uma lei convencionada. Deste modo, ele é um legissigno, de vez que atua como um tipo ou uma lei geral.

De acordo com a terceira tricotomia, isto é, na dependência da relação do signo para com seu interpretante S(I), o signo pode ser denominado de rema, dicente ou argumento.

Rema - Neste a relação signo-interpretante S(I) é entendida como um predicado: “é vermelho” ou “é gordo”. Os remas não nos capacitam para uma decisão.

Dicema - Na relação signo-interpretante S(I) é capaz de ser afirmado e, portanto, pode ser verdadeiro ou falso.

Argumento - É um signo cujo objeto é uma lei geral na sua relação com o interpretante. Deve, pois, necessariamente, ser um símbolo e um legissigno.

No esquema abaixo Pierce representa os componentes das tricotomias e suas relações na formação dos 10 tipos possíveis de signos:

As dez classes de signos podem ser exemplificadas:

(I) Qualissigno – Ex: uma cor qualquer que serve como signo de algo.
(II) Sinsigno icônico – Ex: Um diagrama individual como a curva da variação do dólar em relação ao real no último semestre.
(III) Sinsigno remático indicial – Ex: Um grito espontâneo
(IV) Sinsigno dicente indicial – Ex: Um cata-vento
(V) Legissigno icônico remático – Ex: Um diagrama geral, como a mesma curva acima citada, independemente de sua realidade factual.
(VI) Legissigno indicial remático – Ex: Pronomes demonstrativos.
(VII) Legissigno indicial dicente – Ex: Sinais de trânsito.
(VIII) Legissigno simbólico remático – Ex: Conceitos gerais.
(IX) Legissigno simbólico dicente – Ex: Uma frase corrente como “todos os brasileiros são sul-americanos” ou “a alface é verde”
(X) Argumento – Ex: Sistemas de axiomas, siogismos, formas poéticas.


Os Símbolos

Os símbolos desempenham papel importante na vida, imaginativa. Mas a convencionalidade do símbolo não é completamente arbitraria, isto é, não deixa inteiramente estrangeiros o significante e o significado, mas estes têm uma certa homogeneidade, devido aos recursos de que se serve o símbolo: a alegoria, a metáfora, a metonímia, a parábola, a hipérbole etc.

Os símbolos, pois, além de representarem uma idéia abstrata (como diz Scahaff), transcendem a dimensão puramente cognitiva. O “significado” de um símbolo transborda as fronteiras do racional, pois atinge as camadas mais profundas da psique humana.
Desse modo, seja como subclasse dos signos, seja como categoria paralela, os símbolos apresentam algumas características próprias como, por exemplo, a de recobrir cargas de significado que, por muitas vezes, não podem ser expressas por palavras, ou como diz Jung: “... Uma palavra ou uma imagem é simbólica quando representa algo mais que o seu significado imediato e óbvio.”

Pode-se apontar pelo menos dois atributos aos símbolos:
1) Um símbolo nunca é completamente ‘esclarecido’ explicitamente.
2) Em todo símbolo deve haver alguma forma de semelhança, pois este ainda reflete o objeto ‘simbolizado’.

Urban, estabelece alguns princípios que regem a utilização dos símbolos na comunicação humana:
1) Todo símbolo está por algo.
2) Todo símbolo tem uma referência dupla.- Abrangendo o objeto original e o atual.
3) Todo símbolo contém tanto a verdade quanto a ficção.
4) A dupla adequação. – O símbolo pode ser adequado do ponto de vista do objeto enquanto objeto, ou do ponto de vista que expressa o objeto para a nossa consciência.

O paradoxo do símbolo consiste em que para interpretarmos o sentido do símbolo precisamos expandi-lo, e isto é feito em termos de sentenças literais ou legendas. Aí perdemos o “sentido” do símbolo enquanto símbolo.

O significado simbólico contrasta com o significado literal, pois o seu caráter essencial é o de ser uma metáfora.

Os símbolos podem ser utilizados para desencadear determinadas ações por parte de seus alvos. Uma decisão (como a de votar ou a de comprar), que deveria envolver fatores racionais ligados, em um caso, às crenças políticas, valores etc. e, no outro, às necessidades, possibilidades etc., é tomada, às vezes, a partir de motivações obscuras e parciais ou totalmente inconscientes.

Semiótica e Design

O campo do design gráfico e industrial segue uma tendência em direção à semiótica aplicada. Suas orientações, dada sua estreita ligação com as intenções práticas e comunicativas, estão mais fortemente direcionadas para os valores quantitativos dos números do que para a estética moderna.

Por meio de considerações semióticas, a teoria do design pode transferir-se de uma teoria estritamente técno-matemática ou estético-numérica para uma teoria mais geral, que inclua, juntamente com a materialidade e funcionalidade técnica bem como com a determinação numérica de estados estéticos, também a instituição, o uso, a utilidade e a função comunicativa dos objetos do design.

Segundo Bense, os objetos de design, são antecipáveis como os técnicos, mas tem características em comum com os objetos de arte, assinalados pela indefinição em razão de seu conteúdo estético ou de sua esteticidade, sem por isso aspirarem à singularidade do objeto de arte; os objetos de design distinguim-se precisamente por sua reprodutibilidade.

Em Zeichen und Design, de 1971, Bense mostra que um objeto de design pode ser determinado semioticamente mediante três referências ou dimensões:

1) Dimensão hilética (qualissigno icônico-remático) - Materialidade técnica ou dimensão material
2) Dimensão morfética (sinsigno indexicálico-dicêntico) – dimensão semântica
3) Dimensão sintética (legissigno simbólico-argumêntico) – funcionalidade técnica ou dimensão sintática

Com isso o objeto de design é introduzido como um signo complexo que abrange as três classes sígnicas principais.
Segundo Max Bense, se partirmos do fato de que os objetos de design são planejados, realizados e empregados, poderemos distinguir três fases que representam o esquema pierciano de criação.

Na primeira fase, a fase da projetação do objeto. Um sistema de condições funcionais e conceitos generalizados é ligado a um repertório selecionado de meios materiais para poder realizar o objeto de design prefixado.

Na segunda fase, a de elaboração técnica do objeto de design, organiza-se efetivamente, a partir do sistema dos materiais (hilético) e do sistema das funções técnicas (sintético), o sistema semântico ou morfético do objeto de design como produto.

Na terceira fase, o objeto de design funciona como produto ou realização no sistema de comportamento humano, isto é, uma vez pressuposta a “lei casual teleológica”formulada em 1887 por E. F. W. Pflüger (“A causa de cada necessidade de um ser vivo é ao mesmo tempo a causa da satisfação dessa necessidade”), o objeto de design passa a funcionar como o objeto de uso da “satisfação” de “necessidades”.

Vinícius Proença