Mesa redonda fora do tempo e do espaço
(Livro Artista e Designer de Bruno Munari)

Em torno desta mesa redonda imaginária ouvir-se-ão as vozes autênticas e autorizadas dos maiores pensadores, filósofos, cientistas e artistas de diversas épocas, desde Shaftesbury a Mao Tsé-Tung, desde Toulouse Lautrec a Freud, desde Picasso a Kant, e cada um deles dará a sua opinião para o leitor possa tirar assim as suas conclusões a respeito da arte.

Pede-se a Lewis Mumford que aceda a abrir o debate:

Mumford: Poderemos perguntar-nos porque nos tornámos semelhantes a Deuses no que diz respeito ã tecnologia e semelhantes a demônios enquanto seres morais, super-homens no campo da ciência e idiotas em matéria de estética? (murmúrios). Idiotas, antes de mais , no significado grego de indivíduos absolutamente isolados, incapazes de comunicar entre si e de se entenderem uns aos outros.

Mao Tsé-tung: Permitir que cem flores desabrochem e cem escolas rivalizem, eis uma política para promover o desenvolvimento das artes e o progresso das ciências e que constitui um estímulo para o florescimento da cultura. No campo artístico as formas e os diferentes estilos podem desenvolver-se livremente. Penso que uma intervenção administrativa para impor um estilo ou uma escola, e proibir os demais, seja negativo para o desenvolvimento das artes e das ciências.

Konrad Fielder: Toda a forma de arte se justifica apenas na medida em que é necessária para a representação de qualquer coisa que não seja representável de nenhuma outra forma.

Schiller (voltando-se para Darwin, que baixa a cabeça em sinal de concordância): A arte é uma atividade que se encontra também entre os animais e nasce do instituto sexual, assim como do lúdico.

Spencer: A origem da arte deve ser procurada no jogo.

Mondrian: (com firmeza): A arte é um jogo e os jogos têm as suas regras.

O moderador pede que se baseiem tanto quanto possível em definições menos subjetivas.

Ruskin: Nós esperamos da arte que ela fixe tudo aquilo que é fugaz (os operadores da cinética murmuram entre si), que ilumine aquilo que é incompreensível, que dê corpo àquilo que não se pode medir, que imortalize as coisas que não permanecem (olhares de entendimento entre os artistas conceptuais e os da arte podre). Tudo o que é infinito e o maravilhoso, aquilo que o homem pode constatar sem compreender, amar sem saber definir, é este o verdadeiro objeto da... (é interrompido por rumores vários).

Freud: A arte é uma grande consoladora e aplacadora, ela representa a compensação mais preciosa das insuficiências da existência.

Kurt Schwitters ( rasgando em bocadinhos a carteira de fósforos): É uma função espiritual do homem que tem por objetivo libertá-lo do caos da vida.

Pergunta-se se é possível definir a beleza.

Schelling: A beleza é a percepção do infinito no finito. A arte é a união do subjetivo, da natureza e da razão, do consciente e do inconsciente.

Herbat: Não há nem pode haver beleza que exista por si própria. Nada mais existe além da nossa opinião, que nasce das nossas impressões pessoais.

Leon Battista Alberti: A beleza é a harmonia entre todos os membros de um complexo de que fazem parte, fundamentada numa lei precisa, de modo que não seja possível acrescentar ou retirar alguma coisa, ou mudar algo, a não ser para pior.

Kant: A beleza considerada subjetivamente é aquilo que agrada de um modo geral e necessário, sem conceito algum e sem utilidade prática.

Vozes do público: que agrada a quem?

Hauser: As pessoas não julgam a arte segundo normas estéticas.

Hegel: Nem a natureza objetiva é a regra, nem a pura imitação das aparências exteriores é a finalidade da arte.

Delacroix: A fria exatidão não é arte. A finalidade do artista não é reproduzir exatamente os objetos.

O público cochicha, pois agrada-lhe a arte que imita a natureza, mas exprimi-la.

Lunacarskij: A repetição não é arte.

André Bazin: A fotografia libertou a pintura da obsessão da verosimilhança.

Arp (sorrindo): Nós não pretendemos imitar a natureza. Não pretendemos reproduzir mas apenas produzir, assim como uma planta produz os seus frutos.

Klee: A arte não reproduz o visível, mas torna visível.

Monet: Assim como as aves cantam, penso eu.

Degás (quase interrompendo): A arte é o falso.

Picasso: A arte é uma mentira que nos ensina a compreender a verdade, pelo menos aquela verdade que somos capazes de compreender como homens.

Marinetti: A arte não pode ser senão violência, crueldade e injustiça.

Vozes de estudantes: A arte está morta; a arte não existe! A arte sois vós!

George Seurat (com muita calma): A arte é harmonia.

Toulouse Lautrec: A pintura é como a merda: cheira-se, não se explica.

Karl Marx: Numa sociedade comunista não existem pintores, mas no máximo pessoas que, entre outras coisas, pintam.

Trotsky: A arte deve ser independente de todas as formas de governo e não deve pôr-se às suas ordens nem ao seu serviço.

Mao Tsé-tung: As obras que carecem de valor artístico, por muito avançadas que sejam político, são ineficazes.

O moderador pede que se tirem conclusões.

Arnold Hauser: Não se pode adaptar a arte às limitações mentais das massas modernas (existem trezentos mil analfabetos em Milão), mas esta pode ter a função de alargar, tanto quanto possível, o seu horizonte. E portanto é quase impossível afirmar qualquer coisa a respeito da qual não se possa manter também o contrário. A obra de arte é forma e conteúdo, confissão e engano, jogo e mensagem, funcional e inútil, pessoal e impessoal...

Abraham A. Moles: A criação artística é a introdução no nosso ambiente de formas que antes não existiam.

Georg Nees: A arte não é ação de natureza, mas do espírito. Isto significa que a arte pode ter o maior interesse apenas do ponto de vista da inteligência. Ela exige, como qualquer objeto do mundo e da consciência, uma certa parte de teoria.

El Lisickij: O novo espaço-ambiente não tem necessidade de quadros, não é um quadro transferido para a superfície.

Laszlo Moholy-Nagy: É provável que o desenvolvimento futuro venha a alcançar a maior importância no campo da composição cinética, projetada provavelmente também com raios e massas de luz que se intersectam, flutuando livremente no ambiente, sem um plano definido de projeção.

McLuhan: A luz elétrica é pura informação.

Konrad Fielder: Quem nunca se encontrou num ponto em que tudo lhe parece incerto, nunca chegará a nenhuma certeza (assoa o nariz); o espanto (guarda o lenço) é o primeiro indício da arte.

Sigfried Giedion (levantando-se para sair): Atualmente, será a arte ainda necessária?

Lewis Mumford (encaminhando-se para a saída):
A vida o é?